vi 20 filmes na mostra esse ano
Vida Selvagem 6/10biografia tradicional da modelo/groupie alemã Uschi Obermaier. Ela dá prum comunista, depois dá pros caras do Rolling Stones, depois dá prum playboy com um onibus legal. A primeira metade do filme parece aquelas narrativas que tem nos clipes de Twisted Sisters (só que se levando a sério), depois vira uma espécie de road movie por lugares exóticos. Pelo menos o filme é ousado (impossível entender como a censura é 12 anos), com seios pra tudo que é lado, algumas cenas de nudez completa, e até um sexo oral explícito (embora meio distante).
Abrigo 7/10um casal de lésbicas contrabandeia, sem saber, um rapaz da turkia (ou lugar equivalente) no porta-malas do carro. O filme tem tudo pra ser um drama chato, mas miraculosamente dribla as armadilhas dos temas de homosexualismo e imigração ilegal e consegue desenvolver bons personagens
Sukiyaki Western Django 7/10Pastiche puro, com muito estilo, mil referências vomitadas por segundo, e algumas boas piadas. Ele evidencia a relação samurai/western e envolve isso com um irritante exagero anime. Cansou rápido, faltou drama. Eu esperava mais do Miike.
Tressette 1/10Celebração idiota da tradição e da velhice. Velhos jogando cartas. Velhos reclamando que falta gente pra jogar carta. Velhos revitalizam e salvam a sua bela ilha que corria o risco de desaparecer.
Paranoid Park 9/10'Elefante' só que com 1 protagonista. Gus Van Sant filma mais garotos bonitinhos, e faz isso muito bem. O uso da música é excelente, e ajuda a tornar os vários planos longos do filme realmente expressivos (ao contrário de outros filmes babacas cujos planos longos são apenas entediantes, escondendo-se atrás de uma retórica anti-entrenimento). O filme mostra sobretudo as banalidades da vida de um adolescente, e torna elas significativas envolvendo-as na sombra de um assassinato/acidente com o qual este se envolveu.
I'm Not There 8/10Biografia doidona de Bob Dylan. 7 atores diferentes interpretam ele, incluindo um garoto negro de 11 anos (que fala como um velho sábio cheio de experiência de vida), e Cate Blanchett. O filme nunca fica chato e confuso, apesar da quantia de Dylans diferentes, que ainda ficam se alternando (não há progressão linear, com um simplesmente substituindo o outro, nem tentativas didáticas de estruturar eles). Contudo, pra mim prevalesceu certa aura 'baba-ovo' (comum a maioria das biografias), onde ele é representado como O Grande Artista, que se eleva acima de tudo e de todos (parece que tudo que existe fora dele é meio ridicularizado, trivial comparado à sua genialidade). Parece também que as fases eram mais que meras fases, que ele de certa forma 'transcendia' de uma pra outra. Pra mim, que não sou fã do Bob Dylan, isso era meio irritante.
Armadilha 0/10Bosta de filme. Fui ver porque ele era um filme alemão, censura 18 anos, que se propagandeava como um 'noir'. Impossível deduzir de onde veio a censura e o noir (inexiste qualquer motivo para ambos). História imbecil que não merece ser mencionada.
Sleuth 7/10Eu não fazia idéia de que o dramaturgo Harold Pinter (nobel de literatura) escrevia roteiros. Ele escreveu esse (que agora descobri ser um remake de outro filme com o mesmo nome e o MESMO ATOR - Michael Caine). Só que dessa vez o Sr. Cocaína faz o marido (afinal, o mínimo que ele podia fazer era trocar de papel). Branagh passou metade de seu filme mostrando as maravilhas de uma casa multimilionária super-tecnológica (junto com uma fotografia marcante), pra subitamente esquecer isso completamente e gastar o resto do filme fazendo teatro (praticamente só diálogos registrados de forma banal). As interpretações e o texto são bons, mas a história parece se perder. A partir do momento que o amante engana o marido, a idéia dele triunfar mais uma vez para "empatar" a disputa me pareceu terrivelmente redundante. Era hora do filme ficar maluco, com a casa tomando vida e atacando eles ou alguma merda assim.
Prazeres Desconhecidos 2/10O único prazer desconhecido que testemunhei nesse filme foi o do gordo sentado atrás de mim no cinema, que se divertida horrores com a chatice documental de Jia Zhang-Ke. Ele ria alucinadamente em dezenas de cenas onde nunca nenhum ser humano jamais imaginou ter graça. Deu pra captar o espírito de subúrbio idiota chinês e constatar os efeitos da globalização em 15 min. Foi exatamente a partir desse tempo que o filme deixou de ter qualquer interesse e tornou-se insuportável, salve para algum estudioso do tema ou cinéfilo mongol.
Deserto Feliz 5/10Os atores pareciam lutar contra o diretor desse filme para torná-lo bom. A história é óbvia (garota pobre abusada pelo pai foge pra Recife, onde vira prostituta para ganhar a vida e sonha em se dar bem e ir pro exterior), sem nenhuma sacadinha legal de roteiro (o céu de suely, por exemplo, tinha algumas bem boas como a idéia da rifa). O início compõe-se em torno de numerosos closes silenciosos do rosto da menina (recurso que deixa de ter sentido para tornar-se chato mais ou menos na metade do primeiro deles). O miolo do filme em Recife é mais legal, principalmente graça às atrizes, embora tem uma prostituta velha que volta e meia aparece pra lembrar a ruindade do resto do filme.
Planet Terror 10/10Nunca fui muito fã do Rodrigues, não curti muito nem a trilogia de faroeste avacalhado que revelou ele. Seus filmes sempre me pareceram uma tentativa forçada de ser divertido, perdendo-se nos excessos do que é considerado 'cool', sem conseguir ser criativos ou surpreendente (embora eu gostei do From Dusk Till Dawn, mas o roteiro é do Tarantino, que também atuava em metade do filme).
Porém, com esse filme, Rodrigues me convenceu que é realmente bom. A Carla resumiu bem quando disse que é tudo que o 'western django' do miike tentou fazer (ou deveria ter tentado fazer) e não conseguiu. Frequentemente inusitado, com várias sacadas geniais (não só boas cenas individuais, mas também boas idéias relativas a história/estrutura), achei que embora diferente está no mesmo nível do Death Proof do Tarantino.
Before the Devil Knows... 6/10Tão mediano que nem lembro direito dele para comentá-lo. Acho melhor um filme com problemas sérios e algumas cenas marcantes do que um filme sem erros que "meramente funciona". A primeira cena insinua ser uma espécie de epílogo, ao qual se chegaria de alguma forma interessante. Na metade do filme, porém, descobre-se ser mera sequência linear (não fui o único que sofreu essa decepção). Cenas ficam se repetindo, mostrando sequências de ações simultâneas, sem que isso confira nenhum sentido ou emoção diferente (nem mesmo mera 'surpresa divertida'), ao contrário do efeito que esse recurso tem nas mãos de Guy Ritchie, ou até filmes como Cidade de Deus. Parece ser só um dado neutro, de informação pura, que nem precisaria necessariamente se desenrolar em uma cena que indicasse simultaneidade. Ao invés de um recurso que dinamiza o roteiro, parece uma solução preguiçosa para 'salvar' o filme (tipo "essa história tá um saco, vamos tentar ficar voltando no tempo pra ver se dói menos").
Glória ao Cineasta 8/10Kitano começa brincando com gêneros cinematográficos, sobretudo os de maior ressonância no japão (filmes de yakuza, de ninjas/samurais, de terror que são adaptados por hollywood, étnicos de época, filmes de ozu, filmes românticos com cegos). A maioria deles são engraçados só pelo fato de mostrar Kitano interpretando papéis disparatados, com a voz off desiludida dele comentando suas dificuldades. A maioria fica só num nível mais raso de citação, com exeção do filme étnico japonês que é o mais longo e melhor desenvolvido.
Depois Kitano anuncia um filme de 'meteoro', e diz que se fosse uma produção americana cientistas entrariam numa missão para explodir uma bomba nele e desviá-lo da rota terrestre. A partir disso, o filme vira uma espécie de Monty Python japonês - uma comédia do absurdo dividida em sketches levemente conectadas (contando até com uma pequena animação estilo terry gilliam). Alguns sketches bebem de uma espécie de humor pastelão exagerado japonês que é absurdo demais (até pra monty python), ou que flertam com coisas televisivas japonesas incompreensíveis, mas no geral é muito bom. No final o meteoro atinge a terra e explode com tudo. É uma afirmação interessante da diferença entre hollywood e japão. Lá o meteoro realmente cai, e eles adoram explodir cidades e universos (algum sociológo chato faria uma relação com hiroshima e nagasaki agora).
Redacted 6/10Filme com o discurso padrão negativo sobre a guerra no iraque, com personagens caricatos e uma história óbvia e sem graça. A suposta ousadia estética do Brian de Palma é uma piada.. ele usa vários formatos, sim, mas é só um recurso estético vazio, que não acresenta nada. O que ocorre no máximo é um distanciamento indesejado. Do tipo, tu tá vendo uma imagem de uma handcam amadora, mas o que ela tá registrando não ganha espontaneidade, mas o contrário. A forma que ele filma muda, mas o roteiro rígido e a direção de atores continua igual. Parece uma tentativa forçada de tornar realista uma situação encenada (tornando-a ainda mais artificial do que ela seria originalmente). O mesmo vale para camera de vigilância. A parte dos 'franceses', com a fotografia bonita e música clássica, de primeira vez me pareceu um toque irônico inteligente. Mas esse aspecto foi mal explorado, e não demorou muito preu me perguntar se aquilo era pra ser irônico mesmo! A parte mais tocante do filme é o final apelativo dele, com música sentimental e fotos reais de crianças mortas/feridas no iraque.
Eastern Promises 8/10Há cenas individuais fantásticas, principalmente as que envolvem a máfia. Mas eu tinha esperanças (motivados pelo o que vi no trailer) de que Cronenberg ia se deter mais na parte das tatuagens, e dar menos bola pro drama da médica e a garota abandonada . Quando o filme acaba, metade dos espectadores ficam perplexos. Parecia faltar pelo menos 1/4 de filme. Coisas que parecem pretender-se grandes revelações acabam sendo só dados aceitos passivamente pelo público. Há clima, bons personagens, violência no melhor estilo cronenberg, mas a história é meia-boca. Achei History of Violence superior.
Persepolis 7/10Animação sobre a vida de uma garota iraniana da infância até o início da vida adulta. É legal pra quem é ignorante de história iraniana. Há também boas piadas, e é impossível não gostar da garotinha metaleira invocada. Há também muitos problemas, principalmente com a história, de coisas que não parecem fazer o menor sentido com a psicologia da personagem. O melhor exemplo é a forçação de barra de discurso na sequência que ela passa fome e dorme ao ar livre na Alemanha (só pra dizer que o ocidente também tem problemas).
Go Go Tales 1/10Grande bosta de filme, que cinéfilos elogiam só porque é uma refilmagem de Cassavetes por Abel Ferrara. Se passa num bar daqueles onde garotas dançam em postes e fazem lap-dance, mas não consegue jamais ser minimamente erótico (salve talvez para um velho tarado de 80 anos). O filme não tem o menor ritmo, a camera parece eternamente sonolenta, movendo suavemente de um lado pro outro acompanhando uma trilha sonora igualmente constante e inexpressiva. O filme se diz uma comédia, mas acho que nem o gordo que não parava de rir em Prazeres Desconhecidos veria graça nele. Imaginem um filme onde Cassavetes pudesse
só definir a estrutura da narração, e todo o resto, da direção de atores à manipulação da camera, ficasse por conta de um babaca qualquer. Se a intenção do filme era de fato não ser sensual, nem engraçado, nem passar clima de decadência, nem criar 'personagens vivos', então parabéns! Ele teve sucesso em fazer nada. Não é por esse motivo que vou dar algum crédito pra ele.
À cada um o seu cinema ?/?vários diretores famosos filmam algo envolvendo salas de cinema em 3min.
Serve somente para estudantes de cinema / cinéfilos ficarem brincando de adivinhar de quem é qual segmento (alguns diretores porém estragam a brincadeira revelando os créditos no início, ou atuando no próprio filme).
Os que funcionam melhor, na minha opinião, são as comédias, afinal é 3min. Meus prediletos (consultando a lista na imdb agora) foram os do Kaige Chen, Ken Loach, Lars von Trier, e Nanni Moretti. Também achei legalzinho os do Kitano, irmãos Coen, Cronenberg, e até do Walter Salles (muita gente se irritou, mas só porque acharam 'étnico demais' ou porque já conheciam os caras dos pandeiros e tinham raiva deles). O resto achei tudo meia-boca, embora talvez tenha outros menos ruins que eu não lembre o nome. Os que achei especialmente ruins, no entanto, foram do Gus Van Sant, Jane Campion, Amos Gitai, e todos os milhares que citaram Godard, Bresson, Jean Rouch (com a única exeção de um que fez referência a pickpocket que achei legalzinho mas não lembro qual era).
Programa de Curtas 5 2/10Todos os curtas que vejo na mostra de SP são sempre uma bosta. Por que?